TRISTE MISSÃO
Era quase meia noite quando um homem veio descendo pela rua do templo. Eu fiquei acompanhando ele vir cambaleando por estar alcoolizado. Era um morador de rua que veio de outro município, Rio Branco do Sul. Ele me chamou aqui na porta de casa e eu fui atender. Estava tremendo de frio e molhado pela chuva.
_ O senhor tem alguma manta ou agasalho para me dar? Estou com muito frio!
Eu parei para ouvir sua voz rouca e com dificuldade de falar pela cachaça. Minha esposa foi e pegou um cobertor dos nossos e o envolveu. Ele saiu agradecendo a Deus por nós. Porém eu não me aquietei, algo estranho me chamou atenção. Ao deitar eu fui atrás, eram muitos espíritos grudados neste homem. Espíritos de uma falange que protege os moradores de rua.
Eu não mexi com eles pois eram os que o mantinham vivo. Deixei eles que seguissem com este homem já com marcas de ferimento na testa. Deve ter caído na rua.
Foi difícil para mim ver este quadro espiritual. Eu busquei todas as forças e pedi ajuda. Foi criado um bolsão espiritual que envolveu todos. Como não poderiam se separar, foram encaminhados para outro campo magnético. Existe um campo magnético em Curitiba no horto municipal. É um lugar turístico que atrai muitas pessoas para passear. Eles foram colocados ali pelo ectoplasma humano dos visitantes.
Não eram maus, eram sofredores desencarnados na mesma condição do encarnado.
Eu não sei como vão ficar ou sobreviver neste mundo. Foi um trabalho muito grande que levou quase a noite toda. Eu estava semiconsciente. Trabalhava na rua e no espiritual. Nem acordado e nem dormindo.
Libertação não, acompanhamento. Só poderão ser libertos quando o encarnado tiver em um lugar seguro.
É uma vida triste, mas faz parte do karma existencial.
Liguei para o órgão de proteção aos moradores de rua daqui, e até agora não retornaram. Acho que estavam também com frio.
O que eu pude fazer eu fiz. Eu ainda estou na minha consciência com a imagem do sofrimento. Olhei para o mundo espiritual e não vi solução a não ser deixá-lo seguir pela rua do vale. Porém agora está enrolado em um cobertor. Não sei se ele irá resistir esta onda de frio. A cachaça é como cobertor deste povo.
Que Deus tenha compaixão de todos. Aquela falange era de andarilhos que se protegiam. Eram do mesmo povo que desencarnou e ficaram presos uns aos outros.
Mais uma lição de vida. A gente se torna muito sentimental quando vê os espíritos perdendo suas posições no cenário da evolução material. Meu coração chora no silêncio das minhas lágrimas. O resto é somente consequência das atitudes impensadas.
Salve Deus!
Adjunto Apurê
An/Un
11.07.2026
