A RAINHA DE SABÁ

A Mulher que Caminhou em Busca da Sabedoria

Prólogo — Quando o deserto ainda falava

Houve um tempo em que os homens observavam as estrelas não apenas para conhecer os caminhos da noite, mas para compreender os caminhos da própria alma.

Os desertos eram vastos.

As cidades, distantes.

E entre uma terra e outra caminhavam caravanas carregadas de ouro, incenso, mirra, pedras preciosas e histórias.

Foi nesse tempo antigo que, em uma terra de aromas sagrados e palácios erguidos sob o sol, governou uma mulher cuja memória atravessaria os séculos.

Seu verdadeiro nome perdeu-se entre os ventos da História.

Alguns a chamaram de Makeda.

Outros, Bilqis.

Os livros sagrados simplesmente a chamaram de Rainha de Sabá.

Mas os antigos diziam que uma rainha não se torna eterna pelo ouro que possui.

Torna-se eterna pela pergunta que tem coragem de fazer.

E a Rainha de Sabá tinha muitas perguntas.


Capítulo I — A senhora do reino do sol

Sabá era uma terra de comerciantes, sacerdotes, guerreiros e viajantes.

Ao amanhecer, os portões das cidades se abriam para receber caravanas vindas de terras distantes. Camelos atravessavam as estradas trazendo tecidos, perfumes e notícias de povos que poucos haviam conhecido.

No centro daquele reino estava a rainha.

Ela governava cercada de riquezas.

Em seus salões havia metais trabalhados por grandes artesãos. Os perfumes mais raros queimavam lentamente em recipientes de pedra. Conselheiros aguardavam suas decisões, e homens poderosos curvavam a cabeça diante de seu trono.

Contudo, quando a noite chegava e o palácio silenciava, a rainha caminhava sozinha.

Observava o céu.

E perguntava:

— De que serve possuir tantas coisas se o coração ainda procura aquilo que não consegue nomear?

Seus sacerdotes falavam dos astros.

Seus sábios falavam dos antigos.

Seus generais falavam de conquistas.

Mas nenhuma resposta conseguia acalmar completamente seu espírito.

A rainha começava a compreender que existe uma sede que a água não pode saciar.

É a sede de sabedoria.


Capítulo II — O nome de Salomão

Certo dia, uma grande caravana chegou ao reino.

Os viajantes haviam atravessado longas estradas. Traziam mercadorias e histórias de Jerusalém.

Durante uma audiência, um velho comerciante falou de um rei chamado Salomão.

Disse que sua riqueza era grande.

Mas não foi o ouro que despertou a atenção da rainha.

O homem afirmou:

— Dizem que ele compreende aquilo que existe por trás das palavras.

A rainha inclinou-se em seu trono.

— Todo homem acredita ser sábio quando outros homens desejam agradá-lo.

O comerciante respondeu:

— Talvez, minha rainha. Mas dizem que Salomão não escuta apenas a pergunta. Ele procura conhecer o coração daquele que pergunta.

Naquela noite, a rainha não conseguiu dormir.

O nome de Salomão permaneceu em seus pensamentos.

Ela decidiu colocá-lo à prova.

Não enviaria mensageiros.

Não confiaria nas histórias dos comerciantes.

Ela própria iria até Jerusalém.

Os conselheiros tentaram impedi-la.

A viagem era longa.

O deserto era perigoso.

Havia ladrões nas estradas.

Havia reinos desconhecidos.

Mas a rainha respondeu:

— Aquele que teme o caminho jamais descobrirá o que existe além de seus próprios muros.

E ordenou que preparassem a caravana.


Capítulo III — A travessia

A comitiva partiu carregando ouro, pedras preciosas e especiarias.

Centenas de passos marcaram a areia.

Durante o dia, o sol queimava.

Durante a noite, o frio penetrava as vestes.

A rainha descobriu no deserto uma verdade que os palácios escondem.

Diante da imensidão, todos os seres humanos parecem pequenos.

Ali não havia trono.

Não havia salão real.

Não havia multidões para aplaudir suas palavras.

Havia apenas o céu, a terra e sua própria consciência.

Certa noite, ela afastou-se do acampamento.

Um velho servo percebeu e aproximou-se.

— Minha rainha, não deveria permanecer sozinha.

Ela continuou olhando as estrelas.

— Diga-me: por que os homens têm tanto medo de ficar sozinhos?

O servo pensou antes de responder.

— Talvez porque, no silêncio, começamos a ouvir aquilo que passamos a vida tentando esconder.

A rainha guardou aquelas palavras.

Naquela noite compreendeu que a viagem até Salomão também era uma viagem para dentro de si mesma.


Capítulo IV — Jerusalém

Depois de muitos dias, as muralhas de Jerusalém apareceram no horizonte.

A chegada da Rainha de Sabá causou admiração.

Sua caravana parecia não ter fim.

Os aromas das especiarias espalharam-se pelas ruas.

Quando finalmente entrou no palácio, encontrou Salomão.

A rainha esperava um homem cercado de orgulho.

Encontrou um rei que a observava em silêncio.

Ela falou:

— Atravessei terras distantes porque dizem que és sábio.

Salomão respondeu:

— Se atravessaste o deserto apenas para encontrar um homem sábio, talvez tenhas viajado longe demais.

A rainha estreitou os olhos.

— Então os relatos são falsos?

— Não sei o que dizem sobre mim. Mas sei que a sabedoria não pertence a homem algum. Somos apenas recipientes. Alguns permanecem fechados. Outros permitem que algo maior passe através deles.

A rainha permaneceu em silêncio.

A prova havia começado.


Capítulo V — Os enigmas

Durante dias, a Rainha de Sabá apresentou perguntas ao rei.

Falou sobre justiça.

Falou sobre poder.

Falou sobre riqueza.

Perguntou:

— O que é mais pesado do que uma montanha e mais leve do que uma pena?

Salomão respondeu:

— A consciência. Para aquele que vive em paz, ela é leve. Para aquele que carrega culpa, pode pesar mais do que o mundo.

A rainha apresentou outra questão:

— Qual prisão não possui muros?

— O medo.

— Qual riqueza pode aumentar quando é dividida?

— O conhecimento.

Finalmente, ela perguntou:

— Qual é o maior inimigo de um governante?

Salomão olhou para os homens que os cercavam.

Depois respondeu:

— A voz que sempre concorda com ele.

A rainha sorriu.

Pela primeira vez em muitos anos, sentiu que havia encontrado alguém que compreendia suas perguntas.

Mas Salomão também perguntou:

— Por que vieste realmente?

Ela respondeu:

— Para conhecer tua sabedoria.

O rei disse:

— Essa foi a razão que apresentaste ao teu reino. Agora diga a razão que escondeste de ti mesma.

A pergunta atravessou seu coração.

A rainha não respondeu.


Capítulo VI — O templo interior

Nos dias seguintes, ela observou Jerusalém.

Conheceu os costumes daquele povo.

Ouviu homens falando sobre o Deus de Israel.

Um Deus que não poderia ser contido em uma imagem.

Um Deus invisível.

A ideia perturbou a rainha.

Em sua terra, os homens procuravam sinais no céu e na natureza.

Mas ali falavam de uma presença que estava acima de todas as formas.

Ela perguntou a Salomão:

— Como podeis adorar aquilo que os olhos não conseguem ver?

Ele respondeu:

— Tu já viste o vento?

— Não.

— Mas já viste as árvores se moverem.

— Sim.

— Então conheces o vento por aquilo que ele toca.

Salomão aproximou-se de uma janela.

— Talvez o Divino também seja conhecido pelas marcas que deixa na alma.

Naquela noite, a rainha chorou.

Não por tristeza.

Algumas lágrimas surgem quando uma porta interior começa a se abrir.

Ela percebeu que passara anos procurando respostas fora de si.

Talvez o verdadeiro templo também existisse no coração.


Capítulo VII — O banquete

Segundo antigas tradições, Salomão ofereceu um grande banquete em honra à rainha.

Havia alimentos preparados com especiarias e pratos de sabores intensos.

Antes da noite terminar, os dois fizeram um acordo.

A rainha afirmou que Salomão não deveria tomar nada dela sem sua permissão.

O rei concordou, desde que ela também não tomasse nada do palácio sem pedir.

Durante a madrugada, a rainha despertou com intensa sede.

Sobre uma mesa havia água.

Ela tomou o recipiente.

Então ouviu a voz de Salomão:

— Não disseste que não tomarias nada que fosse meu?

A rainha respondeu:

— É apenas água.

Salomão sorriu.

— Às vezes, aquilo que parece pequeno revela a fragilidade das grandes promessas.

As tradições antigas contam essa passagem de diferentes maneiras.

Algumas dizem que naquela noite nasceu entre os dois uma união.

Outras permanecem em silêncio.

Mas a tradição etíope afirma que, ao retornar à sua terra, a Rainha de Sabá carregava uma nova vida.


Capítulo VIII — O retorno

Chegou o momento da partida.

A rainha havia chegado a Jerusalém com ouro.

Partia levando perguntas ainda maiores.

Antes de sua partida, Salomão perguntou:

— Encontraste aquilo que procuravas?

Ela respondeu:

— Não.

O rei pareceu surpreso.

Então ela continuou:

— Encontrei algo mais importante. Descobri que ainda existe muito para procurar.

Salomão sorriu.

— Então tua viagem não foi inútil.

A caravana iniciou o caminho de volta.

Mas a mulher que atravessava o deserto já não era a mesma que havia partido de Sabá.

O poder continuava com ela.

A riqueza continuava esperando em seu palácio.

Contudo, sua maneira de enxergar o mundo havia mudado.

Ela aprendera que governar homens é difícil.

Governar a si mesmo é ainda mais difícil.


Capítulo IX — Menelik

A tradição da Etiópia conta que a rainha deu à luz um menino.

Chamou-o Menelik.

O jovem cresceu ouvindo histórias sobre um rei distante.

Quando se tornou adulto, desejou conhecer o pai.

Viajou até Jerusalém.

Salomão teria reconhecido nele traços de sua própria juventude.

O rei desejou que Menelik permanecesse em Jerusalém.

Mas o jovem decidiu retornar à terra de sua mãe.

Segundo o Kebra Nagast, uma das mais importantes obras da tradição etíope, acontecimentos extraordinários acompanharam essa viagem.

A narrativa afirma que a Arca da Aliança deixou Jerusalém e foi levada para a Etiópia.

Para os fiéis dessa tradição, a Arca permaneceu guardada naquela terra.

Historiadores discutem a narrativa.

Arqueólogos procuram evidências.

Mas existem histórias cujo poder não está apenas naquilo que pode ser escavado da terra.

Algumas permanecem vivas porque foram gravadas na identidade de um povo.


Capítulo X — A última pergunta

Os anos passaram.

A Rainha de Sabá envelheceu.

Seus cabelos mudaram.

Muitos dos homens que haviam atravessado o deserto com ela já haviam partido deste mundo.

Certa noite, uma jovem aproximou-se da rainha.

— Majestade, dizem que conheceste o homem mais sábio da Terra.

A rainha sorriu.

— Conheci um homem muito sábio.

— Qual foi o maior ensinamento que ele lhe deu?

A rainha olhou para o céu.

As mesmas estrelas que havia observado antes de sua viagem ainda brilhavam.

Então respondeu:

— Ele me ensinou que uma resposta pode encerrar uma conversa. Mas uma verdadeira pergunta pode iniciar uma transformação.

A jovem permaneceu em silêncio.

A rainha continuou:

— Passei minha juventude acreditando que o poder estava em possuir respostas. Depois compreendi que a sabedoria começa quando temos coragem de reconhecer aquilo que ainda não sabemos.

Naquela noite, a velha rainha caminhou sozinha pelos jardins.

Não sabemos quais foram seus últimos pensamentos.

Não sabemos onde seus restos foram depositados.

Não sabemos sequer qual era seu verdadeiro nome.

Mas sua história permaneceu.


Epílogo — A rainha que ainda atravessa o deserto

Milhares de anos se passaram.

Reinos desapareceram.

Palácios tornaram-se ruínas.

O ouro mudou de mãos incontáveis vezes.

Mas a Rainha de Sabá continua caminhando pela memória da humanidade.

Talvez porque sua verdadeira viagem nunca tenha sido apenas de Sabá até Jerusalém.

Sua viagem representa o caminho de todo ser humano que, mesmo possuindo muitas coisas, sente que ainda falta compreender algo.

Existe um deserto entre a dúvida e o conhecimento.

Poucos têm coragem de atravessá-lo.

A Rainha de Sabá atravessou.

E talvez seja essa a razão de ainda lembrarmos dela.

Porque o verdadeiro buscador não viaja para confirmar aquilo em que já acredita.

Viaja para permitir que a verdade o transforme.

E dizem os antigos que, quando uma alma começa sinceramente a procurar a sabedoria, o caminho também começa a procurar por ela.

Fim.

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