CIDADE DOS MORTOS

CIDADE DOS MORTOS
Neste enredo eu fui parar dentro de um cemitério muito chique.
Era como uma grande cidade onde os mortinhos tinham a parte rica e a parte pobre. Reparem que quase toda igreja católica tem o seu cemitério. Com abertura de cemitérios diferenciados deixou a tradição do conservadorismo religioso: cuidar da vida e da morte.
Ao chegar neste lugar santo eu vi muitos espíritos ainda mantendo suas tradições. Eram túmulos e não covas rasas. Conforme o poder aquisitivo da família, as diferenças eram enormes.
Ao percorrer nesta avenida principal, os mortinhos demonstravam a sua cultura. Uns falavam idiomas estrangeiros para se colocar acima dos demais, mas eram do mesmo lugar.
Vi que até após a morte os espíritos continuam com suas denominações. Isso não foi tirado para que não houvesse discordância ou criasse um quadro depreciativo individual.
Com essa condição os espíritos se respeitavam como era na terra. As diferenças sociais das classes.
Passeando por este caminho, aprendendo para poder compreender, eu busquei a verdade pós morte.
Tinha um homem (mortinho) que falava em francês. Era como se tivesse um cálice na mão bebendo champanhe.
Eu somente observava que mesmo desencarnados os espíritos ainda continuam com suas diferenças. Os mais simples ficavam longe dos olhos dos mais ricos. Era simplesmente uma imagem criada para contentar os mortos.
Pela conversa do homem eu notei que este cemitério era na França. Muitas vezes nossos corpos estão enterrados neste mundo. Como Luiz XV eu fui enterrado na minha origem. Como a vida dá muitas voltas. Hoje estou aqui no Brasil, Campo Largo, Paraná, preparando meu mundo espiritual. Deixei toda aquela riqueza, pompas, socialite, para viver uma vida simples. Em cada uma de minhas encarnações eu fui enterrado em lugares diferentes. Esta de hoje foi na França.
Eu continuo estudando. Continuo trabalhando para reerguer a minha história.
As muitas viagens me revelam os meus segredos que cultivo no meu sol interior. Muitos desencarnados, mesmo depois da morte, não conseguem relembrar as suas aventuras pela terra. Lembram parcialmente da última. Ficam desligados da memória astral.
Para mim é como uma renovação do caminho. É mais uma oportunidade de poder refazer o seu destino.
Eu me afastei da avenida central para penetrar na simplicidade dos espíritos. Escondidos em suas covas na terra, foram saindo aos poucos. Para mim não tinha diferença, era somente status do poder material que criou até neste lugar as separações. Vejam que os espíritos estão presos às suas vibrações. Cada um vibra conforme ele viveu encarnado.
Para mim era algo corriqueiro, mas para eles a tradição era mantida.
Pude arrastar dali alguns mortinhos que já cansados de esperar a ressurreição queriam ir embora. Talvez para não se sentirem oprimidos pela cultura de suas participações entre ricos e os plebeus.
No final da contagem todos são iguais. O que os mantém assim é ainda conviver sob um paradoxo, oximoro.
Subi alto para desgrudar meus pés deste mundo. Meu corpo jazz neste cenário das ilusões sentimentais. Me emocionei ao ver minha sepultura.
Aquele homem com cálice na mão quando me viu subindo ficou estático.
Jamais pensou ser um espírito em trânsito.
Os que eu pude carregar na rede magnética foram levados para outras dimensões.
Salve Deus!
Adjunto Apurê
An/Un
28.01.2026

Vale dos Deuses 1985