Carta escrita em 1976 quando soldado do exército em Brasília – BGP. Transcrição – Era tarde. O sol já se punha no horizonte. Todos se preparavam para deitar: uns conversavam, outros brincavam. Tudo parecia tranquilo, como se nada pudesse acontecer. Mas aquela calmaria era apenas o prelúdio do que estava por vir.
De repente, a sirene disparou. Começou um corre-corre desesperado, acompanhado de gritos de um lado para o outro. Ninguém sabia ao certo o que fazer.
A guerra havia chegado.
Os céus começaram a relampejar. Trovões e explosões ecoavam pelo espaço. Parecia o fim do mundo.
De repente, uma chuva de morteiros caiu sobre nós. Vimos nossos amigos tombarem, mortos no chão, sem que pudéssemos fazer nada. Alguns choravam, outros se escondiam, todos tomados pelo desespero.
Mas, de repente, tudo cessou. O silêncio tomou conta de tudo. Esperávamos um novo ataque. Todos, deitados nas trincheiras, aguardavam, em agonia, o fim daquela tragédia.
Um tiro rompeu o silêncio. Em meus braços, um corpo inerte caiu. Olhei para seu rosto e, como num piscar de olhos, comecei a chorar.
Era meu irmão. Meu querido amigo e companheiro, com quem havia dividido tantos momentos. Fomos criados por uma mãe que tanto se dedicou a nós. Olhei para o céu e pedi a Deus que tudo aquilo acabasse.
Mas o céu voltou a zunir, e tudo recomeçou. O barulho infernal das metralhadoras e dos canhões parecia querer arrancar de nós até mesmo a última esperança de paz.
— Ai, minha mãe! Ai, meu pai! Perdoem-me por não ter cuidado do meu irmão!
Sabíamos que o fim estava próximo, mas, sem desanimar, continuávamos lutando por nossa Pátria. Sentíamo-nos honrados por defender aquilo em que acreditávamos.
A cada momento recuávamos, até chegarmos a um refúgio onde todos estavam salvos. Foi ali que começou a verdadeira guerra. Cada um, querendo defender a própria vida, passou a lutar com ainda mais fé e determinação.
Em meio àquele barulho infernal, outro som suave ecoava. Começamos a ouvi-lo: era o Hino de nossa Pátria.
Num só clamor, todos se levantaram e, em um único grito, desceram o morro abaixo. Parecia que o próprio hino nos chamava:
— Venham! Venham, que nós venceremos!
Confiantes e unidos, começamos a atacar e a atirar. Vimos o inimigo recuar e, a cada momento, nossa confiança aumentava.
Foram-se horas a fio, mas continuávamos firmes e de pé. A cada instante, aquela melodia enchia nossos corações de confiança e fé.
Finalmente, tudo cessou. A guerra havia terminado. Nós vencemos!
O hino ainda tocava. Todos permaneciam parados, em uma só posição, ouvindo e cantando aquela melodia em uma única voz.
Mas, de repente, a música parou.
Nosso irmão, aquele que a tocava, acabara de partir para junto de Deus.
Adeus, meu irmão!
1976 – Batalhão da Guarda Presidencial – BGP

