MORTINHO
Ele chegou antes do seu dia de passeio.
O mortinho veio se encostando em mim. Eu me olhava e me sentia morto. Eu era um defunto vivo.
Que radiação ruim é da morte sem esclarecimento da verdade.
Me senti desfigurado. Sentei na cama para reorganizar meu físico, mas o mortinho teimava para eu seguir com ele. Do cemitério sentado na sua lápide ele vibrava em minha cabeça.
Se eu não reagisse com a prece de sabá eu nem sei o que poderia acontecer.
Fiz a prece em voz baixa para criar um escudo em minha aura e afastar este indigente espiritual.
Um desconhecido que vive preso ao seu túmulo.
Fui reparando no espírito e ao abrir a porta que separa os dois mundos tive a nítida forma do espectro que silenciosamente vibra sua angústia.
_ Meu Deus! O que você quer de mim! Você está morto!
A palavra morto é entendida por muitos espíritos desencarnados. Se eu falasse desencarnado ele não entenderia.
Os portões do cemitério só abrem à meia noite do dia dois.
É como um passe livre para visitarem seus amores, seus lares e suas famílias.
Neste dia que se perpetua pelo tempo, os humanos arrumam as eternas moradas do último suspiro. Somente neste dia se lembram dos que ainda não foram para suas origens.
Como deste homem que veio no meu campo psíquico. Agora eu já sei quem ele é, mas vou guardar sua identificação para que o mundo espiritual faça a reparação.
Com a prece ele foi se desgrudando do meu corpo, principalmente da minha cabeça. A sensação é um formigamento nos vasos do couro cabeludo. Aos poucos desprendeu e mesmo assim ainda deixou uma perturbação mental.
A prece de sabá me salvou. A luz veio de dentro para fora. Não veio de fora, porque ele estava como barreira no campo vibracional.
A chama resplandeceu no meu plexo e a força subiu para os chacras.
Eu ainda sinto a vibração de onde ele está preso.
Vou falar sério: que coisa ruim, esquisita e sensação estranha é ser irradiado pela morte.
A morte não tem voz, mas aqui tinha até forma.
Sabem quando dizem : não levem flores ao cemitério, levem enquanto estão vivos. Porém aqui os mortinhos esperam de cada membro o contato físico espiritual.
É onde retiram um pouco da energia dos vivos para terem força de reagir ante os convites de seus tutores para irem embora.
Só vai aquele que se conscientizou de sua morte, ou como dizemos, desencarne.
Por isso, nos templos do amanhecer, neste dia ficamos de honra e guarda. Somente quando fecham os portões dos cemitérios os atendimentos começam.
Tem alguns que não voltam para lá e ficam hospedados com suas famílias na terra.
Os trabalhos nos templos têm realizado muitas curas que os olhos não vêem. A cura do espírito e do corpo físico.
Ele foi afastado e eu estou me preparando para o desenvolvimento deste domingo.
Salve Deus!
Adjunto Apurê
An/Un
01.11 2026

