ENTREGA
Chegando de viagem de São Paulo nós vamos colocando em ordem os nossos compromissos.
Era meia noite quando bateu palmas em frente a minha casa. Era um homem que veio procurar recursos espirituais. Não é bem ele que veio, mas sim o seu guia que o trouxe aqui comigo. Tranca Rua não gosta que seus médiuns, mulas, estejam doentes. Eu o vi logo na aura do homem. A sua presença causou aborrecimento em casa. A energia deste povo não é como a do amanhecer.
Eu conversava com ele para vir nos trabalhos de quarta-feira.
Eu pedi, com muito respeito, o seu retorno no templo para receber a cura espiritual.
Tranca Rua entendeu, mas o rapaz estava desorientado e insistia para alguém lhe ajudar.
Os sofredores não gostam de pessoas doentes. Eles sugam a vitalidade e depois se afastam deixando as enfermidades serem tratadas pela medicina da terra. Quando se curarem, eles voltarão a assediar.
Nós tínhamos acabado de entrar em casa.
À noite eu fui conversar com o Exu que demonstrou preocupação com sua mula. Eu já tive muitos arrancas rabo com ele tentando interferir na casa de Seta Branca. Hoje foi diferente, ele veio pedir ajuda.
Lá fora das amarras da terra nós temos outra consciência. Todos somos vítimas de nossas atitudes. Até os piores inimigos da missão merecem nosso respeito.
O tranca Rua me fez lembrar de um veículo que eu tinha comprado para trazer e levar os filhos deste amanhecer para o templo. Ele fez de tudo para os médiuns não irem para o templo mãe fazerem suas consagrações. Acabou com o motor da Kombi. É uma longa história.
Sem nada falar eu vi que os espíritos também se arrependem de certas interferências no caminho dos humanos. Mas a questão aqui é de sobrevivência.
Eu respeito muito os enfermos, porque nós também já fomos menos esclarecidos. Graças a Deus que conseguimos mudar nosso roteiro.
Conversando com este espírito ele se comprometeu a não nos incomodar mais. Poderá até passar nos trabalhos da casa com muito respeito e amor.
Enquanto o homem subia pela rua eu quebrava a sintonia da entrega. Não seria despacho como oferendas, mas a entrega de uma alma para ser tratada.
Eu sou respeitado por onde passo. Tudo porque nos mundos de Deus quem rege o comando são entidades preparadas para esta finalidade.
Aqui é como receber um paciente encarnado ou desencarnado. São iguais em enfermidades somente mudando sua condição.
Eu pedi para este povo respeitar o meu povo. Eu não vou atrás de ninguém, porém não posso fechar as portas para quem nos procura. É a liberdade em jogo. Assim como muitos procuram as trevas, muitos procuram a luz.
O mundo dos mortos querendo voltar à vida. O problema é que eles não aceitam reencarnar pelo processo normal. Querem ser tratados com diferença. Eles sabem que ao reencarnar perderão seu poder sobre os espíritos. Serão esquecidos pelos que estão escravizados.
Essa é a luta destes espíritos. O livre arbítrio não os força a seguir outra estrada. Eles é que precisam decidir se vão seguir ou não. Nós só fazemos nosso trabalho de resgate.
Esta madrugada foi bacana. Eu vi uma pequenina luz no final deste túnel. Será que vai acontecer o improvável.
Eu não aconselho ninguém a fazer tratativas com este mundo sofrido. Muitas vezes vocês pensam que estão doutrinando, porém estão sendo doutrinados. Os sofredores se fazem de vítimas para enganar. Eles querem somente energias para se sustentarem.
Os dois foram embora. O Exu cuidando do seu aparelho e seu aparelho desnorteado porque sua família está sofrendo um arresto emocional.
Complicado este mundo esquecido.
Salve Deus!
Adjunto Apurê
An/Un
27.01.2026