FESTA NO CONGÁ
Eram tantos pais Joaquim: das águas, das Aruandas, das cachoeiras, das pedreiras, do Congo que eu nem sabia mais quem era quem.
Foi aniversário de um deles, mas qual. Foi muito divertido esta viagem, porque todos tem suas grandes missões com os médiuns na terra.
Tinha uma que mais chamou atenção, que era filha do nago Joaquim das Almas. Minha ligação com ela, minha neta, meu respeito com ternura.
Eu vejo as conquistas e dificuldades dos seus passos, mesmo não desenvolvendo no amanhecer, é filha de Seta Branca.
Ninguém é obrigado a participar desta missão fisicamente, mas o espírito vem buscar as bençãos do céu.
Sempre se transportando de onde mora para o templo, vem se integrar com as forças da cabala.
Desta vez foi lá no congá de Joaquim. Era bem simples, bem humilde, aquele terreiro de terra varrida com um círculo de pedras para marcar o lugar. Eu me sentei para apreciar esta reunião com muita alegria. Eles sorriam como se estivessem muito tempo distante um dos outros.
A conversa estava boa.
Minha neta foi convidada a estar ali com seu tutor.
No mundo das perfeições nós somos chamados para registrar os efeitos transitórios dos espíritos. Na terra tudo passa, mas é no espiritual que se guardam as conquistas.
Como disse Jesus: “guarde sua riqueza onde ninguém poderá roubar”.
Tem um fator que me chamou atenção. Quando não cumpre com seus desígnios acaba perdendo a sua conquista.
Tudo que tinha por direito reencarnatório evapora como fumaça de chaleira. Entendam bem, nós juramos um caminho e este caminho vai se estreitando para chamar atenção. Não falo do Juramento deste amanhecer, falo das 19 reencarnações que nunca foram completadas. O juramento do amanhecer é algo desta encarnação que também deve ser observado nas cláusulas de sua responsabilidade.
Nós somos espíritos em trânsito. Os homens da terra se prenderam pelas leis que se tornaram escravidão humana. Esqueceram que também são humanos e mais tarde cairão nas suas próprias teias.
É lei dentro da lei.
Tudo para desviar o foco da verdadeira obra do criador.
Quais são as leis de Deus?
Amar a Deus sobre todas as coisas e a teu próximo como a ti mesmo. Uma delas.
A segunda está no seu coração.
Sentado no círculo de pedras eu me diverti com os pais Joaquins. Pai Joaquim de Enoque veio me trazer sua cuia com água benta. Bebi em três goles. Tentei oferecer para minha neta, mas era para mim. Nós, pela caridade, sempre pensamos no próximo, esquecendo que também precisamos de ajuda.
Primeiro estar curado para depois curar. Como um doente vai curar outro doente.
A razão desta continuidade é porque nós assumimos um compromisso de estar nesta transformação especial. Quando abrimos um canal especial não sabemos quem ou o que virá por ele. Só vamos saber quando chegar.
Em um trabalho especial, como me disse a tia Neiva, as coisas acontecem sem uma programação lógica. Tudo se forma no momento da abertura.
Ao beber da água que eu recebi eu vibrei a luz que impregnou em todo o meu ser.
“Quem beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede”.
A água da vida eterna. Nós somos orientados nos trabalhos a levar água do templo para nossos lares. Esta água corre na fonte dos desejos. Ela está impregnada por todas as energias que curam os enfermos.
Trouxeram uma bandeja de madeira com alguns manjares de energia. Tentei oferecer para minha neta, porém o nagô disse que não, era para mim. Ela estava recebendo o que era para ela.
Tem muitas coisas para aprendermos. Eu sempre aprendi a dividir o pão. Pelo que vi nem todos podem molhar seu pão nesta cuia.
Merecimento ou seja qual for a decisão dos velhos sábios eu não discuto.
Muitas vezes uma pessoa tem tanta proteção que acaba esquecendo de sua responsabilidade. Aí que mora o perigo, pois acreditando nesta opinião se entrega aos deslizes da fé.
A festa continuava com muita alegria. Naquele tronco oco o som percorria outros congás. Convite pelo som das batidas secas.
O dia começou a clarear e os espíritos começaram a descer. Tudo se apagou, menos a minha lembrança. É como se eu estivesse ainda lá estando na terra. A visão não apaga as memórias, somente esconde.
Salve Deus!
Adjunto Apurê
An/Un
08.01.2026